A Casa do Contador de Histórias, OSCIP criada em 2004 em Curitiba, é uma iniciativa social pioneira no Brasil, encabeçada por um grupo de contadores vindos de várias áreas profissionais. A entidade realiza um trabalho amplo por intermédio de seu Núcleo de Ação Social.

A escritora e contadora nigeriana Chimamanda Adichie tem uma excelente história pra contar sobre os perigos da história única.  O vídeo tem cerca de 19 minutos e cada um deles vale muito.

PS: Para colocar legenda, basta ir em View Subtitles (no cantinho esquerdo abaixo do vídeo) e escolher Portuguese (Brazil)

Vai lá:



Há muitos e muitos anos, vivia na cidade de Damasco, na Síria, um pobre homem chamado Ismar. Ismar sempre lutara para ganhar a vida dignamente; não tendo podido estudar e aprender uma profissão sujeitava-se a qualquer espécie de serviço: limpava jardins, carregava pedras, buscava água, sempre com boa vontade, trabalhando sem se queixar.

Com o passar dos anos, porém, Ismar começou a sentir-se cansado e preocupado. Durante a vida toda só trabalhara e nunca conseguira juntar qualquer dinheiro, nenhuma economia que pudesse socorrê-lo em caso de necessidade. A única coisa que tinha de seu era uma casa, herança antiga da família.

A casa ficava num bairro pobre de Damasco, no fim de uma rua esburacada. Era feita de pedras e protegida por um portãozinho de madeira. Atrás da casa corria um riacho; à beira do riacho crescia uma velha figueira e era à sombra dessa figueira que Ismar costumava descansar depois de trabalhar a manhã toda. Ali ele refletia sobre sua vida e se perguntava o que seria dele quando a velhice não lhe permitisse mais o esforço físico. Estou ficando velho, pensava, não tenho filhos que me possam sustentar. Será que Alá, meu pai divino, vai me abandonar?

Sempre assim cismando, um dia Ismar dormiu, recostado à figueira, e teve um sonho; sonhou que estava na cidade do Egito. Ele nunca havia estado realmente no Egito, mas no sonho passeava com desembaraço pela avenida central da cidade e distinguia perfeitamente os mercadores de tapetes, os minaretes das mesquitas. Atravessando uma praça, ele dobrava à direita, descia uma rua estreita, chegava a um rio. Sobre o rio havia uma ponte e embaixo da ponte – ó maravilha! – um cofre repleto de moedas e jóias reluzentes!

Quando acordou, Ismar teve certeza de que aquele era o tesouro que Alá lhe reservara. O sonho tinha sido tão nítido, tão preciso nos detalhes, não havia engano! Sem pensar em mais nada, ele arrumou sua trouxa e pôs-se a caminho do Cairo. Era uma longa distância, principalmente para ele, que ia a pé e sem dinheiro. No entanto, movido pela convicção de encontrar sua fortuna, Ismar atravessou desertos e vales, rios e florestas, até chegar, finalmente, exausto e maltrapilho, à cidade que lhe aparecera em sonho. Sua fé, então, redobrou de vigor, pois o Cairo era exatamente como ele havia sonhado! Ele reconheceu a avenida principal, os mercadores de tapetes, os minaretes das mesquitas; chegou à praça, virou à direita, desceu a rua, avistou o rio, aproximou-se da ponte, mas… no exato lugar em que deveria estar o tesouro, não havia cofre algum; havia, isso sim, um mendigo mais pobre e maltrapilho que ele.

Chocado, Ismar deu-se conta da sua loucura! Como pudera acreditar tão piamente num simples sonho? Que tolo fora! E agora, com que forças enfrentaria a viagem de volta? Que impulso de fé ou esperança sustentaria aquela alma tão esvaziada pela decepção? Não, pensou ele. Melhor será acabar com os meus dias aqui mesmo. Nenhuma esperança me resta. E, decidido a se afogar, subiu à ponte. Já estava quase se atirando quando sentiu que alguém o segurava, agarrando sua perna por debaixo da ponte.

Era o mendigo que gritava:

- Hei amigo! Cuidado, você pode morrer! Esse rio é perigoso!

- Ainda bem! – respondeu Ismar – É isso mesmo que desejo: matar-me.

- Não faça isso. – ponderou o mendigo – Você ainda tem muito que viver. Escute, desça até aqui e conte-me a sua história. Faça sua última boa ação, entretendo um miserável como eu. Depois, se quiser, pode se matar!

Ismar hesitou, mas resolveu afinal repartir suas dores com aquele desconhecido. Contou-lhe o sonho, concluindo:

- Então, no mesmo lugar em que deveria estar o cofre, estava você… Agora, diga-me, não tenho razão em querer acabar com minha vida?

- Olhe, – exclamou o mendigo – não queria dizer isso, mas acho que você tem razão. Você foi muito irresponsável, um louco!!! Acreditar num sonho! E que você sonhou só uma vez? Veja se tem cabimento! Pois fique sabendo que eu, há cinco anos, tenho o mesmo sonho, que se repete quase todas as noites. E não é por isso que vou sair correndo atrás do que sonhei.

- E o que você sonha? – perguntou curioso Ismar.

- Escute só: eu sonho que estou na Síria, na cidade de Damasco, o que já é uma asneira, pois nunca estive na Síria. Estou num bairro pobre, seguindo por uma rua esburacada. No fim da rua há uma casa de pedra, protegida por um portãozinho de madeira. Atrás da casa corre um riacho; à beira do riacho cresce uma figueira e, dentro dessa figueira, que é oca, há um tesouro! Não é uma bobagem? Eu é que não sou louco de acreditar em sonhos, não acha?

Ismar não respondeu. Estava pasmo, pois reconhecera, pela descrição do mendigo, a sua rua, a sua casa, a sua amada figueira! Compreendendo os laços do destino, abraçou o mendigo, tomou o caminho de volta e chegando à sua casa, foi direto à velha árvore, onde o tão sonhado tesouro o aguardava.

Feliz daquele que sonha e que faz o sonho acontecer! 

História extraída do livro Novas Histórias Antigas, de Rosane Pamplona

Os cursos de 2011 da Casa do Contador de Histórias já estão marcados. Agora, só falta você se inscrever para revelar o contador que mora aí dentro. São cinco cursos, sempre aos sábados (dia inteiro) e domingos (pela manhã). Cada curso tem duração de 12 horas.

2 e 3 de abril

4 e 5 de junho

6 e 7 de agosto

1 e 2 de outubro

26 e 27 de novembro

Mais informações aqui. Ou envie um email para:
contato@casadocontadordehistorias.org.br.



CARNE DE LÍNGUA

Ainda em clima de anivesário, aí vai de presente uma história sobre o alimento da nossa alma – a carne de língua. Bom apetite!

Carne de Língua

(Conto Africano retirado do livro As Narrativas Preferidas De Um Contador De Histórias, de Ilan Brenman)

Há muito, muito tempo, existiu um rei que se apaixonou perdidamente por uma rainha. Depois do casamento, ela foi morar no castelo do rei, mas, assim que pisou lá, misteriosamente ficou doente. Ninguém sabia por que a rainha havia adoecido; o fato, porém, é que ela definhava a cada dia.
O dono da coroa, que era muito rico e poderoso, mandou chamar os melhores médicos do mundo. Eles a examinaram, mas não descobriram a causa da doença. O rei, então, mandou chamar os curandeiros mais famosos do mundo. Fizeram preces, prepararam poções e magias. Também não adiantou nada. A rainha emagrecia diariamente – dali a pouco desapareceria por completo.

O rei, que amava sua esposa tão intensamente, decidiu:
– Eu mesmo vou procurar a cura para a doença da minha rainha.
E lá foi ele procurar a cura para a sua rainha. Andou por cidades e campos. Num desses campos, avistou uma cabana. Ao chegar perto, aproximou o rosto da janela e viu, lá dentro, um casal de camponeses. O camponês mexia os lábios e, na frente dele, a camponesa, gordinha e rosadinha, não parava de gargalhar. Os olhos daquela mulher transbordavam felicidade. 

O rei começou a pensar:
– O que será que faz essa mulher ser tão feliz assim?
Com essa pergunta na cabeça, ele respirou fundo e bateu à porta da cabana.
– Majestade! O que o nosso rei deseja? – perguntou o súdito, um pouco assustado com a presença real à sua frente.
– Quero saber, camponês, o que você faz para sua mulher ser tão feliz e saudável? A minha mulher está morrendo no castelo, toda tristonha.
– Muito simples, Majestade: alimento a minha mulher todos os dias com carne de língua.

O visitante pensou que tivesse ouvido errado: carne de língua! O morador da cabana repetiu:
– Alimento minha esposa diariamente com carne de língua.
A situação era de vida ou morte. O rei, mesmo achando aquilo meio estranho, agradeceu ao homem do campo e foi correndo de volta para o castelo. Chegando lá, mandou chamar imediatamente à sua presença o cozinheiro real:
– Cozinheiro, prepare já um imenso sopão com carne de língua de tudo o que é animal vivente na Terra.
– O quê?! Como assim, Vossa Majestade? – estranhou o chefe da cozinha real, com um ponto de interrogação no rosto.
– Você ouviu direito! Carne de língua de todos os animais do reino! Corra, porque a rainha não pode mais esperar.

O cozinheiro foi chamar os caçadores do reino. Passadas algumas horas, ele tinha à sua frente línguas de cachorro, gato, rato, jacaré, elefante, tigre, girafa, lagartixa, tartaruga, vaca, ovelha, zebra, hipopótamo, sapo, coelho…

No meio da noite, a nova sopa já estava pronta no caldeirão. O próprio rei foi alimentar a rainha com carne de língua. Entrou no quarto e ficou espantado com a aparência dela. Sentou-se ao lado, pegou uma colher do sopão e a aproximou da boca de sua amada esposa. Com muito esforço, ela engoliu algumas colheradas daquela comida exótica.

O rei esperou, esperou e esperou, mas a rainha não melhorava – muito pelo contrário, parecia que a morte a levaria a qualquer momento. Cansado de esperar, ele se desesperou. Se não fizesse algo, sua mulher iria embora para sempre.
-Soldado! Soldado! – gritou.
Um homem enorme, com armadura e espada, entrou no quarto.
– Escute bem, soldado. A rainha tem que ser transferida imediatamente para a casa de um camponês. Lá você encontrará uma mulher gordinha e rosadinha; quero que a traga até aqui.

Então explicou ao soldado onde ficava a casa desse homem do campo. Essa era a última chance, ele imaginava, de a mulher sobreviver. Mas talvez o rei não tivesse entendido direito o que o camponês lhe dissera.
– Corre, corre, soldado! A vida da rainha depende disso!
O soldado pegou a rainha no colo e com a ajuda de outros homens saiu em disparada até a casa no campo. A troca foi feita e, assim que a camponesa entrou no castelo, adoeceu misteriosamente. Depois de três semanas, aquela mulher, que era gordinha e rosadinha, estava magra e triste. O rei, então, decidiu ver como estava a sua esposa.

Chegando na cabana, pôs o rosto na janela e… Não podia ser! A rainha estava gordinha, rosada e gargalhava como nunca se vira antes. À sua frente, o camponês não parava de mexer os lábios. O rei bateu à porta:
– Novamente por aqui, Majestade! O que deseja?
– Camponês, o que está acontecendo!? A sua esposa está morrendo no meu castelo e a minha está toda feliz e saudável aqui na nossa frente.
– Me diga, Majestade: o que fez?
– Fiz exatamente o que você mandou. Dei carne de língua de cachorro, gato, sapo, coelho, girafa… para a minha rainha e para sua esposa também. Mas, caro súdito, nada adiantou.
– Vossa Majestade não compreendeu o que eu disse – riu-se o homem do campo. – Eu alimentei a rainha e a minha esposa com carne de língua: as histórias contadas pela minha língua.

Sua Majestade meditou um pouco sobre aquelas palavras. Lembrou-se também dos lábios daquele homem se mexendo. Parecia que agora havia entendido. Chamou sua esposa de volta e mandou a camponesa de volta para sua casa. Assim que a rainha entrou no castelo, o rei prometeu que lhe daria todas as noites, antes de dormir, carne de língua.

A partir daquele dia, contam os quenianos, o rei contava uma história diferente todas as noites. Esse povo africano nos revelou que nunca mais a rainha ficou doente. Ensinaram-nos um segredo: As histórias fazem muito bem para as mulheres, homens, crianças, jovens, velhos – e até mesmo para os reis. 

E tem jeito melhor do que começar um blog do que em plena comemoração? Hoje, dia 13-12-10, a Casa do Contador de Histórias comemora 7 anos de vida, fechando assim seu primeiro setênio! E o que não falta é presente. Um deles é a sede da Casa – um casarão histórico cedido pela Prefeitura de Curitiba. Mas o mais importante dos presentes é ter você, leitor, ainda mais perto da gente, para ouvir, ler e compartilhar as histórias aqui neste blog.

Parabéns Casa do Contador de Histórias e a todos os voluntários que contribuem para a realização do sonho de alimentar a humanidade, que precisa tanto de histórias quanto de pão.

E se você quer conhecer um pouco mais sobre essa Casa, não deixe de visitar o nosso site. Ali você pode conhecer a história de uma iniciativa social pioneira no Brasil, encabeçada por um grupo de contadores vindos de várias áreas profissionais. A Casa do Contador de Histórias é uma OSCIP – Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, de Utilidade Pública Municipal pela Lei Nº 12707 desde de Abril de 2008. 

A nossa grande missão é resgatar o ato milenar de contar histórias para ajudar as pessoas a se conectarem aos seus sonhos e ao amor pela vida, despertando a consciência dos valores universais para a construção de um mundo melhor.

Faça também uma visita na nossa página no Facebook.

 

Muitas felicidades, contadores!

E muitos mais anos de vida para a arte de contar histórias!

Bem-vindos todos!

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